Conspiratio

A dádiva da conspiratio

by Ivan Illich

Traduzido do alemão e do inglês por Silke Kapp1)

No dia 142) de novembro de 1996, cheguei ao auditório do prédio da biblioteca [da universidade de Bremen] às duas em ponto, bem na hora da minha aula. Por cinco anos, havia comentado textos antigos, em busca da longa história ocidental da philia, da amizade. O novo semestre seria dedicado à perda do senso comunitário, à perda do senso de proporcionalidade, à decisiva ruptura na percepção sensível no tempo de Locke, Leibniz e Johann Sebastian Bach. Naquele dia, havia me preparado para falar do desaparecimento das unidades de medida autóctones, da vara, da fanga e do arrátel, que mudavam a cada alfândega.3) Meu ponto era interpretar o processo de ‘temperamento igual’ da época dos filhos de Bach como apenas uma das manifestações daquilo que então eram afinações locais.4) Mas nada disso aconteceu. Fui impedido de dar minha aula. Meus ouvintes tinham outros planos: a comemoração do meu septuagésimo aniversário dois meses depois da data. Rimos e dançamos até à meia-noite.

A coisa começou com discursos. Sentado na primeira fila, atrás de um buquê, ouvi dezessete falas. Depois de cada uma das laudationes, eu tirava uma flor do buquê, em agradecimento por uma migalha de lembranças. A maioria dos oradores estava além dos cinquenta — amigos de quatro continentes. Alguns traziam reminiscências dos anos 1950, em Nova York, outros eu conheci bem mais tarde, nas aulas em Kassel, Berlim, Marburg, Oldenburg e, desde 1991, em Bremen. Enquanto eu procurava palavras apropriadas de gratidão para cada um dos oradores, me senti como Hugo de São Vítor, meu amigo e mestre de Paris por volta do ano 1135. Há uma carta em que ele chama a si mesmo de “burro de carga”, mas dizendo que as amizades que depositaram em seus cestos no decorrer de sua longa peregrinação não lhe pesavam — elas lhe deram asas.

Depois das laudationes, atravessamos o chuvoso pátio até o GW2,5) um prédio que sempre evitei porque parece um deserto de concreto abandonado. Já na caixa de escada o clima estava diferente. Surgira um bar dançante ali: umas cinco dúzias de mesas postas, luz de velas, guardanapos coloridos. O departamento de ‘economia doméstica’ havia doado do orçamento semestral um panelão grande o suficiente para preparar sopa de batatas para um batalhão. O reitor, que estava em Beijing a negócios, havia financiado uma banda Klezmer.6) Ludolf Kuchenbuch, saxofonista e decano da FernUniversität Hagen, tocava anunciando nossa entrada. Numa contribuição circense, dois palhaços e uma bicicleta parodiavam meu livro Energy and Equity.

Com um seleto vinho da Borgonha, tirado das profundezas do Ratskeller,7) o prefeito Henning Scherf me parabenizou. Seu discurso foi de ‘embriagada sobriedade’, como o chamavam os bizantinos: simples e sucinto. Ele se dizia contente com o fato de que Illich, ao setenta anos, teria finalmente encontrado em Bremen um “pedacinho de lar [ein Zipfel Heimat]”. Ele me citava. Da boca do prefeito, a frase soava grotesca, mas verdadeira. Imaginem só isso: um lar aqui, nessa chuva gelada! Comecei a pensar: como eu pude encontrar o “pedacinho de lar” nos longos e sombrios invernos de Bremen ou nos prados do rio Wümme, diariamente alagados pela maré? Eu que, quando garoto, senti Viena como um exílio nórdico, porque meus sentidos dalmacianos estavam apegados ao carste branco, às oliveiras e ao adriático da primeira infância.8)

A festa desta manhã, aqui na Villa Ichon junto ao parque do fosso,9) é ainda mais inacreditável do que o evento do ano passado. Jamais pensei que teria uma segunda recepção assim em Bremen, junto com laureados pacifistas e agentes culturais nativos desta cidade: Helmut Donat, Karl Fruchtmann, Will Quadflieg e Helmut Haffner. Jamais pensei que seria bem vindo, não apenas às respeitáveis autoridades, mas aos comerciantes de Bremen. A Villa Ichon é um testemunho da cultura urbana de Bremen — não de filantropia privada nem de administração pública. Vocês, meus anfitriões, entendem a si mesmos como mercadores hanseáticos, como cidadãos com ‘poder das chaves’.10) No dia da inauguração da Villa Ichon, não deixaram que nenhuma autoridade tocasse suas chaves. Para mim, a Villa Ichon é a prancha que dá acesso à “balsa das coisas frágeis e vulneráveis”, como Klaus Hübotter chamou este lugar. Insistindo na própria autonomia, vocês acentuam a diferença de que quero falar hoje — a diferença entre a sociedade civil e o governo municipal, entre o ‘nós’ livre e o ‘nós’ administrado. Emociona-me profundamente que este prêmio, destinado a cidadãos de Bremen, hoje seja conferido a mim, o peregrino, o primogênito de uma família de comerciantes numa cidade portuária que por séculos conquistou e reconquistou sua liberdade entre as duas potências do Adriático, Veneza e Bizâncio. Minha origem pertence a um mundo cuja herança quase desapareceu, mas que me torna receptivo à hospitalidade hanseática. A iniciativa de vocês me mostra que sobrevive aqui uma proporcionalidade entre a hospitalidade fugidia e sempre nova, e uma ordem que se perpetua para além dela.

Aos meus seis anos de idade, Bremen entrou pela primeira vez na minha imaginação como referência nórdica. Minha professora de Artes, a senhora Pfeiffer-Kuhlenkampf, vinha de uma família patrícia de Bremen, e em Viena sofria de saudades do norte. Num verão, ela viajou conosco à Dalmácia, a Spalato, como hóspede das muralhas do Palácio de Diocleciano.11) Lá me mostrou a diferença entre as misturas da aquarela azul para o Adriático e para o mar do Norte.

E agora estou em casa aqui, no clima salgado e cinzento da tia Pfeiffer-Kuhlenkampf. E não apenas ‘em casa’ — gosto de pensar que minha presença em Bremen refresca a atmosfera da universidade. Quando Johannes Beck, então decano da Faculdade de Ciências Humanas e Educação, me levou por aquele pátio molhado até o improvisado bar dançante, ele disse algo que tomo como um presente: “Ivan, aquilo ali está com o cheiro da Kreftingstraße!”. Seu comentário me assegurou que, aqui em Bremen, consegui algo que almejei por décadas — fazer a atmosfera da mesa de comensais penetrar nas salas da universidade. Sente-se a aura da hospitalidade de Barbara Duden na ‘Kreftingstraße’ bem além de nossa soleira.

Outras atmosferas surgiram à minha volta, mas nunca como aqui, desde 1991. Porque aqui essa aura me sustenta e persiste, muito intensamente na casa Duden e em toda aula para a qual a universidade me permite convidar ouvintes. O prêmio de vocês deve nos ajudar a coletar a condensação dessa atmosfera, se Silja Samerski tornar possível encaminhar versões escritas das nossas conversas também a pessoas ausentes aqui.

Ainda antes do início do meu primeiro semestre em Bremen, Barbara Duden conseguiu uma casa no bairro do Ostertor, além do velho fosso, logo atrás da esquina das drogas, do mercado dos agricultores e do bairro turco. Ali, Barbara criou um ambiente de austera alegria. A casa se tornou um lugar que, num piscar de olhos, dá conta de acomodar nossos hóspedes. Se, depois das minhas aulas nas sextas-feiras, a panela de espaguetes precisa alimentar mais do que as duas dúzias de pessoas que cabem em volta da mesa de madeira de soalho, os convidados se sentam nos cobertores mexicanos da sala ao lado.

Com o passar dos anos, nossa ‘Kreftingstraße’ fomentou uma proximidade privilegiada, em interações respeitosas, disciplinadas e críticas: amizades de velhos conhecidos que vinham de longe, e amizades novas, com pessoas três ou até quatro décadas mais jovens do que meu mais antigo companheiro, Ceslaus Hoinacki, que divide seu quarto com nossas enciclopédias. A amizade torna únicos os laços, mas alguns carregam o fardo do anfitrião mais do que outros. Kassandra, que mora em outro lugar, tem as chaves da casa e sempre traz as flores; e Mathias, o baterista virtuoso que vive no porão, no quarto que dá para o pequeno jardim, é um dos muitos igualmente dispostos a receber o recém-chegado à porta, mexer a sopa, orientar uma conversa, lavar a louça e corrigir manuscritos meus e de outros.

Hospitalidade generosa e relaxada é o único antídoto contra a postura de mortífera esperteza que se adquire na perseguição professional de conhecimento objetivamente assegurado. Continuo certo de que nenhuma busca da verdade floresce sem que seja alimentada pela confiança mútua que desabrocha no compromisso da amizade. Por isso tenho tentado identificar o clima que fomenta o crescimento da amizade e o ‘ar condicionado’ que o impede.

É claro que me lembro do sabor de atmosferas marcantes de outras épocas da minha vida. Nunca duvidei — hoje menos ainda — do fato de que uma postura ascética é precondição para a descoberta do nonsense cotidiano; que apenas essa postura possibilita uma recusa historicamente fundamentada às modas intelectuais. Apenas onde as pessoas se ajudam mutuamente a não precisar de quase nada, elas se tornam capazes de rir das necessidades. Apenas o compromisso gratuito dos amigos me torna capaz de praticar o ascetismo requerido para os quase-paradoxos modernos, como o paradoxo de rejeitar a análise de sistemas enquanto digito no meu Toshiba.

Minha suspeita de juventude, de que o studium a que me dedicava pressupunha atmosfera, tornou-se uma convicção quando o Sputnik russo provocou uma avalanche de dinheiro nas universidades estadunidenses. Depois de um ano como vice-reitor da universidade de Puerto Rico, em 1957, passei a questionar a ideologia do desenvolvimento que movia Kennedy e Mao, o Papa e Castro. Pus todo o dinheiro que tinha — hoje equivalente ao prêmio que vocês estão me conferindo — na compra de uma minúscula cabana de madeira, entre bananeiras e uma vista para o mar do Caribe. Com três amigos, queria criar uma ‘pensaria’12) em que todo emprego do pronome pessoal nos-otros seria, verdadeiramente, uma referência a nós quatro. À sua mesa qualquer hóspede sentiria a singularidade corpórea de um ‘nós’ aberto. Junto com o chapéu, todo hóspede deveria livrar-se também da segurança daquele ‘nós’ inflado do sociólogo, do nacionalista, do político. Como Charlie Rosario, um de nós quatro, disse à sua companheira, a mulata Belen: “institutos fedem — no melhor dos casos, a desinfetante, e a uma aura envenenada, esterilizada”. La casita no caminho das montanhas de Adjuntas logo se tornou notória, e eu tive que deixar a ilha.

Assim, estava livre para recomeçar uma ‘pensaria’ no México, que, cinco anos depois, se tornou o cidoc. Ainda hoje cedo, na fala introdutória a esta celebração, o deputado Freimut Duve — que naquela época era meu editor na Rowohlt e me visitou no México várias vezes —mencionou a atmosfera do cidoc: um clima de benevolência mutuamente afinada. O cidoc logo se tornou ponto de encontro de pessoas que questionavam a inocência da empreitada desenvolvimentista muito antes de isso se tornar moda. Nas palavras de Duve, aquela aura explica a influência que nossa pensaria provisória exerceu sobre a crítica das consequências do darwinismo social.

Fechamos o cidoc, em comum acordo, no dia primeiro de abril, exatamente dez anos depois de sua fundação. Comemoramos o seu fim com música e dança mexicanas. Freimut Duve lhes falou de Valentina Borremans. Ela coordenou o cidoc desde a fundação, e Duve se disse impressionado pelo estilo de Valentina ao encerrar esse empreendimento em concordância com os sessenta e três colaboradores. Ela sabia que a alma dessa pensaria livre, independente e impotente teria sido destruída se sua influência crescesse mais.

Fechamos o cidoc, contrariando as críticas veementes da maioria dos amigos sérios, incapazes de compreender os paradoxos da atmosfera. Eram sobretudo pessoas às quais a hospitalidade do cidoc havia oferecido, por alguns anos, um fórum muito especial. Elas não queriam acreditar naquilo que nós sabíamos: que a atmosfera seduz à institucionalização, que a sufoca. Não se pode prever o que o espírito da philia despertará, mas pode-se prever o que o estrangula. A aura é uma surpresa, e é um milagre quando ela persiste. As tentativas de assegurar e utilizar a aura a envenenam.

Poucos estão dispostos a entender isso. Abri o vinho do prefeito de Bremen com Valentina, no México, para brindar a um amigo falecido cuja simplicidade emitia uma aura: Alejandro Del Corro, um jesuíta argentino, que havia trabalhado comigo desde os anos 1960. Sempre com sua Laica, ele viajou por toda a América Latina, negociando e colaborando com chefes da guerrilha para salvar seus arquivos para a posteridade. Alejandro era um mestre na moderação da aura. Quando conduzia um encontro, sua cuidadosa atenção criava confiança mútua entre o guerrilheiro, o diplomata estadunidense, o mendigo e o professor, sentados à mesma mesa do cidoc. Alejandro sabia que não se pode possuir a aura, sabia da fugacidade, da volatilidade da atmosfera.

Digo atmosfera na falta de melhor termo. Em grego, essa é a palavra que designa a emanação de uma estrela, a constelação que governa um lugar. Os alquimistas chamavam de ‘atmosfera’ as camadas em torno do nosso planeta. Os franceses se referem ao bouquet des esprits como o espírito de uma mesa de comensais. Apesar de sua delicadeza, a atmosfera é algo muito real, determinante. Eu uso a palavra para algo frágil e frequentemente negligenciado, o ar que emana e entretece, e evoca memórias. Nós nos lembramos dela, da mesma maneira que a aura do vinho da Borgonha continua ecoando tempos depois de esvaziada a garrafa.

Para sentir a aura é preciso, antes de tudo, um nariz. O nariz salta da testa, entre os olhos, e o que ele inala penetra no escuro, afeta o ventre, vai ao âmago. Qualquer iogue ou hesicasta sabe disso. E os judeus sabem que o nariz se curva no meio do rosto, pois aquilo que os cristão traduzem por “andar sob as vistas de Deus”, em hebraico é “caminhar sob o sopro do nariz de Deus”. Precisamos de ‘faro’ para saber onde estamos; precisamos contar com o nariz para confiar; precisamos sentir o cheiro do outro para saber se o suportamos.

No início, a cultura cívica ocidental oscilou entre culta desconfiança e simpática confiança. Platão duvidava que muita proximidade fizesse bem aos cidadãos de Atenas. Não considerava de bom tom que, no teatro, o cidadão se deixasse afetar até as entranhas pela paixão dos atores. Exigia que o frequentador do teatro educasse a si mesmo para agir como espectador distante (theoretes), não como místico. Na Poética, Aristóteles criticou essa exigência de seu mestre e defendeu o compartilhamento da experiência trágica, que chamava de mimesis. O participante no teatro deveria vibrar junto com aquilo que os gestos, a mímica, o tom de voz, a respiração e a melodia dos atores lhe oferecesse; deveria vibrar junto com o que vai além das palavras. Não deveria apenas entender, e sim se deixar afetar. Para Aristóteles, sem essa participação na atmosfera trágica, não haveria katharsis: a purificação dos sentidos, a reviravolta do coração. Quem não é atingido pelo outro até as entranhas não ultrapassa a si mesmo.

No alemão coloquial, essa mimesis ressoa quando alguém diz ‘Ich kann Dich gut riechen’.13) Não se diz isso a qualquer um. Cheirar alguém pressupõe proximidade, confiança e suscetibilidade. Tais palavras olfativas nunca desapareceram completamente da linguagem cotidiana, nem mesmo nos tempos do banho diário. Se suporto bem o seu cheiro, ‘suporto’ bem você — eis algo que só se pode dizer em alemão.14)

Eu me lembro de como fiquei envergonhado quando finalmente descobri que até então, mesmo depois de anos de ascética disciplina, havia ignorado a ligação íntima de nariz e coração, odor e afeto. Eu realmente havia agido como se fosse possível criar proximidade mantendo o nariz tapado! Isso mudou repentinamente, numa noite de meados dos anos 1950, quando eu voltava para a miserável cabana de Jaime, onde estava hospedado. Tinha que atravessar o rio Rímac, a cloaca maxima de Lima. A ideia de passar mais algumas noites no miasma do barranco sobre o canal, como hóspede num canto da casa de Jaime, me dava arrepios. E, de repente, surgiu a katharsis, a compreensão do que Carlos vinha me dizendo havia tempos: “Ivan, não se iluda; não pense que você pode ser amigo das pessoas se não suporta o cheiro delas!”. Na soleira de Jaime, meu nariz já não estava obstruído. Finalmente, pude dar minha própria contribuição à atmosfera do meu anfitrião.

Quando foi isso? Há quarenta anos, na época do [avião] DC-4, da ingênua fúria desenvolvimentista, da crença na benção dos Peace Corps; no tempo em que o ddt ainda era caro demais para favelados latino-americanos, e os pobres ainda tinham que aguentar pulgas e piolhos; no tempo em que o cheiro de velhos, aleijados e idiotas ainda era tolerado em casa. Foi antes do xerox, do fax e do e-mail, antes do smog e da aids. Naquela época, eu era considerado um derrotista quando acentuava os efeitos colaterais indesejados do desenvolvimento, quando falava aos sindicalistas do desemprego tecnológico e falava aos esquerdistas da desigualdade crescente entre ricos e pobres em consequência dos novos meios de produção. Naquela época, ainda era coisa de gente esquisita lamentar as perdas irreparáveis que se tornaram inevitáveis: horrores como o global warming e a medicina cancerígena.

O que então pareciam fantasias histéricas são hoje fato mais do que documentados. Vivemos no rumo da colisão com o iceberg, acostumados a horrores antes inimagináveis. Eles precisam ser exorcizados. Apostamos nos rituais dos congressos científicos, da prevenção, da grande pesquisa, que conjuram, interditam e banalizam o horror. O que me preocupa hoje é que, nessa dança, os esqueletos tanto quanto os violinos distraem daquilo que quero discutir: a perda de ‘atmosfera’. Essa perda da aura, do clima humano, do ‘cheiro’, me parece ainda mais horrível do que a ameaçadora mudança climática, o sumiço do ozônio, das corujas e dos idiomas, a crescente imunidade dos patógenos, o desaparecimento dos empregos, a multiplicação de mercadorias úteis para seres humanos tornados inúteis.

Esse medo é a razão pela qual arrisco perturbar vocês com minhas lembranças de uma caminhada ao entardecer, minhas lembranças do cheiro de urina e fezes emanado do Rímac. Aquela paisagem não existe mais. Os carros correm sobre o esgoto, agora canalizado. Na pele e na cabeça dos indios já não habitam pulgas e piolhos; hoje são as alergias produzidas pela química industrial que provocam as coceiras. Os barracos autoconstruídos deram lugar a habitações sociais públicas. Todo apartamento tem privada e geladeira, todo morador tem sua própria cama — e o hóspede sabe o quanto é inconveniente. As emanações do Rímac se tornaram memórias numa cidade asfixiada pela poluição industrial. O que me assusta é que a perda da ‘atmosfera’ fica esquecida em meio a tudo isso. Comparo o agora ao outrora porque isso me permite argumentar que a iminente perda de espírito, de alma, do que chamo de atmosfera, poderá passar despercebida.

Quero manter acesa a saudade dessa coisa frágil e volátil, a coisa corriqueira que está ameaçada porque não sabemos como chamá-la. Foi mais ou menos isso que Hilde Osthaus me disse pouco antes de sua morte. Somente aqueles que vão ao encontro uns dos outros com confiança conseguem deixar emergir uma atmosfera.15) O hálito inominado da amizade varia a cada respiração. Por muito tempo acreditei que não haveria nenhuma palavra precisa para isso, certamente nenhum verbo. A cada vez que ensaiava alguma, ficava inseguro; a publicidade desgastou todos os seus sinônimos. A indústria supre o cotidiano de auras, de coisas repletas de atmosfera sintética. Assim como as vitaminas, vendem-se estimulantes de sentimentos, com styling, design e sugestões subliminares. Não apenas os cremes para a pele, os cigarros e as viagens, também os cursos universitários e os banheiros emanam algo artificial. A produção de ‘clima’, de atmosfera é comercializável: desde os anos 1970, dinâmicas de grupo, atividades físicas e cultos fazem a sua parte. Por muito tempo, achei melhor ficar calado para não gerar mais confusão.

Trinta anos depois daquele entardecer sobre o Rímac, eu soube de repente que poderia nomear aquilo que queria proteger e cultivar com uma palavra muito simples, e essa palavra é ‘paz’. Não a paz nos sentidos em que hoje é negociada internacionalmente, e sim paz no seu peculiar sentido pós-clássico, europeu. No início achei forçado, pois o substantivo ‘a paz’ não dá conta disso. Mas depois percebi que ‘pacífico’ [‘friedlich’] significa muito mais do que livre de violência. Designa a atmosfera da amizade que cresce entre iguais. E para compreender esse sentido da pacificidade [Friedfertigkeit], precisei descobrir sua origem na conspiratio, esse estranho comportamento ritual hoje esquecido.

Foi assim: em 1986, três dúzias de centros de pesquisa da paz, na África e na Ásia, pretendiam fundar uma confederação. A assembléia de fundação foi realizada no Japão. Na busca por um palestrante do terceiro mundo, lembraram-se de mim, pois não deveria ser ninguém da Ásia nem da África, e me engajaram como latino-americano. Depois de alguma insistência, aceitei, peguei minha guyabera, a camisa típica da América Latina, e fiz a viagem que me parecia tão esquisita quanto importante.

Em Yokohama fiz a palestra, falando como historiador. Sobretudo, eu queria desmanchar o conceito universal de paz; queria acentuar que cada ethnos tem o direito de ser deixado em paz — na sua paz. Parecia importante esclarecer que a paz não é um estado abstrato, e sim uma coisa especialmente delicada de que cada comunidade usufrui somente na sua especificidade única e inefável.

Minha intenção em Yokohama era dupla. Eu queria examinar não apenas o sentido, mas também a história e as inversões da paz naquele continente, apêndice da Asia e da África, que chamamos de Europa. Afinal, a maior parte do mundo do século xx sofre de infecções cujos portadores são conceitos europeus, e ‘paz’ é um desses conceitos. Fui ao Japão e falei do conceito europeu de paz, da maravilhosa singularidade daquilo que um dia foi o entendimento europeu da ‘paz’. E falei da corrupção de uma paz tornada subproduto do ‘desenvolvimento’, quando crescimento econômico, escolarização, diagnósticos médicos e administração global erradicam justamente aquilo que, aqui na Europa, na nossa tradição, um dia se entendeu por paz. Apenas se tirarmos a paz (pax) das garras do empreendimento desenvolvimentista, virá à luz a extraordinária maravilha que, por milênios, esteve contida na palavra pax. Por isso dei à palestra o título “De-linking Peace and Development” [Desvinculando paz e desenvolvimento]. Mas falar aos japoneses sobre a história desse ideal pacifista europeu foi difícil, para não dizer constrangedor.

Em japonês, há um ideograma e uma palavra para algo que não temos no Ocidente, algo que nem sabemos como dizer ou experienciar — foodo. Meu anfitrião e mestre, Joshiro Tamanoy, me explicou o foodo: “o frescor inigualável que surge da mistura de uma água específica com o respectivo solo”. Confiando no meu agora já falecido anfitrião pacifista, comecei pelo conceito de foodo. Não foi difícil mostrar que tanto a philia ateniense quanto a pax romana, por mais diferentes que sejam entre si, nada têm em comum com foodo. A philia designava a amizade entre os homens livres de uma cidade, e a pax romana, o status administrativo de uma região em que as legiões haviam plantado seus estandartes. Graças à ajuda do professor Tamonoy, foi fácil detalhar as contradições e diferenças entre essas duas noções e levar a audiência a fazer comentários sobre heteronomias similares no significado cultural de paz no interior da Índia ou entre grupos vizinhos na Tanzânia. As incarnações caleidoscópicas da paz se referiam todas a alguma atmosfera particular, altamente desejável. Até aí, tudo bem.

A coisa começou a ficar constrangedora apenas quando me pus a falar da pax na época proto-cristã, pois, por volta do ano 300, pax havia se tornado palavra-chave na liturgia cristã. A pax conspirativa era um eufemismo para o beijo na boca entre os fiéis reunidos na missa: pax se tornara um disfarce para o osculum (de os, boca) ou a conspiratio, a mesclagem de hálitos. Meu amigo achou que, ao mencionar tal contato corporal em público, eu não estava apenas arriscando criar mal-entendidos, mas talvez ofendendo a platéia. No Japão, aquele gesto tem algo de ofensivo, pois provoca nojo a ideia de encostar os lábios nos de outrem para trocar hálitos.

De resto, a palavra latina para esse beijo, o osculum, não é antiga nem muito frequente. É apenas uma das três palavras que podem ser traduzidas por ‘beijo’. Em comparação com o afetuoso basium e o lascivo suavium, o osculum é um retardatário no latim clássico. O termo era usado somente para um único gesto ritual, a saber, o beijo diante do juiz, com que um soldado de partida reconhecia o fruto esperado por uma mulher como filho seu.

Na liturgia cristã do primeiro século, o osculum assumiu uma nova função. O auge da liturgia cristã, na celebração da eucaristia, estava em dois gestos: conspiratio e commestio. Na conspiratio — o beijo fraterno, isto é, a união de spiritus, respiração ou ‘espírito’ —, os celebrantes se tornavam uma comunidade no Espírito Santo, no sopro de Deus. A ecclesia surgia por meio de uma ação ritual pública, a liturgia, e a alma dessa liturgia era a conspiratio. Explícita e fisicamente, a celebração cristã era entendida como uma co-respiração, uma con-spiração, a criação de uma atmosfera comum, um meio social divino. O outro momento eminente da celebração era, é claro, a commestio, a comunhão na carne, a incorporação do fiel no corpo da Palavra incarnada. Mas a communio era teologicamente vinculada à conspiratio que a precedia. A conspiratio seguida de commestio era a expressão somática mais clara, forte e evidente da criação não hierárquica de um espírito fraternal num corpo, em preparação para a ceia unificadora. Pelo ato de comer, os companheiros conspiradores eram transformados num ‘nós’, na reunião que, em grego, é ecclesia. Além disso, acreditavam que o ‘nós’ também seria o ‘eu’ de alguém; eram alimentados pela fusão no ‘eu’ da Palavra incarnada. As palavras e ações da liturgia não são apenas palavras e ações mundanas, e sim eventos que ocorrem depois da Palavra, depois da incarnação. Paz como a mesclagem de solo e água soa lindo aos meus ouvidos, mas paz como o resultado de conspiratio requer uma intimidade exigente, hoje quase inimaginável. Portanto, pode-se compreender o primeiro cristianismo como um movimento fundado na capacidade de qualquer pessoa para criar comunidade a partir da própria entrega. Era um movimento em que, do amor corpóreo de uns pelos outros, derivava a emergência de um ‘nós’ (um ‘eu’ plural).

O gesto do osculum não deixou de gerar controvérsias. Os documentos mostram que a conspiratio logo se tornou escândalo. O azedo africano Tertuliano, padre da igreja, quis abolir o beijo para não ofender as matronas que vinham à comunhão. A prática persistiu, mas com outro nome; o ritual exigia um eufemismo. Desde o final do século iii, pax se tornou o eufemismo para osculum pacis. Até hoje, a pax antes da comunhão, o chamado beijo da paz [ou ósculo santo], é parte da missa romana, eslava, grega e síria, ainda que tenha sido reduzido a um breve aperto de mão.

Não pude deixar de contar essa história hoje, aqui em Bremen, assim como outrora em Yokohama. Por que? Porque a própria ideia de paz, entendida como hospitalidade que se estende ao estrangeiro e como congregação que emerge da prática da hospitalidade, não pode ser compreendida sem referência à liturgia cristã na qual a comunidade surge pelo beijo na boca. Porque a ideia de uma sociedade que emerge da vontade de todos os seus membros, e à qual nós nos habituamos como algo evidente, precisa ser compreendida a partir da conspiratio litúrgica. Nada se assemelha à comunidade entendida como incorporação somática de iguais, isto é, uma comunidade que não é fruto de um ato autoritário de fundação, nem um presente da natureza ou dos deuses, nem resultado de gerenciamento, planejamento e design, e sim consequência de uma cuidadosa dádiva mútua. A forma original dessa fundação comunitária é a conspiração, a celebração da primeira liturgia cristã em que todos, não importando sua origem, homens e mulheres, gregos e judeus, escravos e cidadãos livres, criam uma realidade pacífica que os ultrapassa: conspiratio incarnada, um ‘nós’ visível, que emerge do osculum pacis, do hálito conjunto.

Historiadores mostraram que a origem concreta da ideia de um contrato social, que domina o pensamento político da Europa desde o século xiv, está na maneira como os fundadores das cidades medievais concebiam a civilidade urbana. Certamente, a forma jurídica civil do contrato social se formou nas cidades medievais: nelas está a origem de uma sociedade fixada por contrato. Na ‘aurora da Europa’, à sombra dos castelos feudais, mercadores e artífices confraternizaram para formar um novo corpo social [Gemeinwesen]: uma cidade cujo espírito se tornou, pela vontade de seus cidadãos, uma comunidade sólida, cercada [umfriedet16)]. Não tenho dúvida de que essa espécie inédita de fundação comunitária de um corpo político e econômico, no século xii, não se explica senão pelo hábito, cultivado por muitas gerações, da celebração da conspiração litúrgica.

Mas esse aspecto conspirativo na fundação das novas cidades ‘democráticas’ é quase sempre esquecido na história urbana. Os historiadores põem ênfase no aspecto contratual: no contrato que deve dar estabilidade à paz urbana, isto é, na conjuratio — uma promessa recíproca reforçada por um juramento. Concentrando-se no aspecto contratual dessa incorporação, os historiadores desviam a atenção do bem que tais contratos deveriam proteger, a saber, a paz resultante da conspiratio. Não se pode deixar de notar o pretensioso absurdo que é a tentativa de assegurar por contrato uma atmosfera tão volátil e viva, tão delicada e robusta quanto a pax.

Os mercadores e artífices que se assentaram aos pés de um castelo feudal sentiram a necessidade de fazer a conspiração que os uniria numa associação segura e permanente. Para alcançar essa garantia geral, puderam recorrer a um dispositivo, a conjuratio, uma promessa mútua confirmada por um juramento que tem Deus por testemunha. A maioria das sociedades conhece o juramentum, o juramento em que o jurado amaldiçoa a si mesmo, caso não cumpra com sua palavra. No juramento, o camponês põe a mão na sua genitália ou o pé na terra, o normando põe o pé no seu barco, a mulher segura sua trança, para que a palavra dada seja incorporada. Isso não basta aos jurados urbanos: eles usam o nome de Deus como aglutinante de sua palavra. O uso do nome de Deus para fazer valer o juramento aparece pela primeira vez como dispositivo legal na codificação da lei romana feita pelo imperador cristão Teodosio. A ‘conjuração’, o juramento conjunto confirmado pela invocação de Deus, é de origem cristã, da mesma maneira que o osculum litúrgico. A conjuratio, que chama a Deus como testemunha do laço social, deve assegurar estabilidade e permanência a uma atmosfera que, por princípio, terá sido fundada antes pela conspiratio dos cidadãos. No nexo de conspiratio e conjuratio, esses dois conceitos peculiares herdados do primeiro milênio da história cristã estão entrelaçados, mas o último, a forma contratual, logo ofusca a substância espiritual.

Portanto, a cidade medieval da Europa central tinha uma configuração bipartida: a de conjuratio conspirativa, de ‘atmosfera conjurada’, o que a distingue de todos os outros modos de existência urbanos. Havia ali uma tensão dinâmica entre a atmosfera da conspiratio, a delicada e volátil pacificação [Be- und Umfriedung], e sua constituição contratual na conjuratio, a exigência de renovada respiração da cidade cercada. Idealmente, o clima espiritual é a fonte da vida urbana que desabrocha numa hierarquia, como uma concha ou moldura, para proteger a sua ordem. A cidade concebida como oriunda de uma conspiratio deve sua existência social à pax, a respiração compartilhada por todos.

A comparação de Klaus Hübotter da Villa Ichon com uma balsa me fez pensar na essência da atmosfera, e isso nos levou a essa longa história sobre a origem da cidade a partir da ‘paz’ entre cidadãos que praticam uma peculiar hospitalidade recíproca; e não apenas recíproca — afinal, vocês também convidaram este peregrino a compartilhar o espírito daqui!

Como acadêmico, fui formado por uma tradição monástica e pela interpretação de textos medievais. Percebi cedo que uma atmosfera propícia ao pensamento autônomo pressupõe hospitalidade: a arte de ser anfitrião e a arte de se sentir convidado; sem condescendência nem pressão; simples e até ingênua, de modo que a conversa logo faz esquecer quem pensou o que; respeitosa e sem timidez. Fui generosamente presenteado. Experimentei afinidades relaxadas, engraçadas e às vezes grotescas entre amigos completamente comuns ou muito extravagantes, entre seres humanos que são pacientes uns com os outros. Em Bremen, na casa que você, Barbara, criou; em Bremen, Johannes, a seu convite, pude usufruir disso mais do que em qualquer outro lugar.

1)
Esta tradução partiu de duas fontes. A primeira e principal é um texto escrito por Illich em alemão, sob o mesmo título adotado aqui: “Das Geschenk der conspiratio” (A dádiva da conspiratio). Trata-se de uma homenagem ao pedagogo Johannes Beck — por ocasião de seu septuagésimo aniversário —, que, por sua vez, expande uma fala que Illich proferiu em 14 de março de 1998, na Villa Ichon, em Bremen, ao receber o Kultur- und Friedenspreis (Prêmio de Cultura e Paz) da cidade. A segunda fonte é a versão do mesmo texto em inglês, feita pelo próprio Illich, sob o título “The Cultivation of Conspiracy” (O cultivo da conspiração). Nela, novamente, ele expande o texto alemão em algumas passagens, mas omite outras. Minha tradução segue o texto alemão, porém, acrescentando-lhe trechos da versão inglesa sempre que ajudam a esclarecer o raciocínio ou a narrativa. Tais acréscimos estão assinalados em violeta.
2)
Na versão em inglês, está dia 16 de novembro.
3)
No alemão, as medidas mencionadas são Elle, Scheffel e Wecken. Elle era uma unidade de comprimento que corresponde a um antebraço e era usada especialmente na alfaiataria. Traduzo por vara pois, no Brasil, essa foi uma medida usual no comércio de tecidos. Dela deriva a expressão ‘no varejo’. Já Scheffel era uma unidade de volume, usada sobretudo para grãos, variando, conforme a localidade, de menos de vinte a mais de trezentos litros. Traduzo por fanga, que foi uma medida de grãos e sementes usada em Portugal, equivalendo a aproximadamente cinquenta litros. Também era chamada fanga a área necessária para o plantio do respectivo volume de sementes. Wecken era uma unidade usada para pesar pão, equivalendo a cerca de um quilo, mas, de novo, com muitas variações regionais. Traduzo por arrátel, uma unidade de peso usada em Portugal e no Brasil, e igualmente variável.
4)
Temperamento igual (no original, gleichschwebenden Temperierung) é o sistema de afinação musical que hoje domina absoluto, à diferença, por exemplo, dos quase extintos temperamentos pitagórico, mesotônico e irregulares.
5)
GW2, Geisteswissenschaften 2, é o prédio das Ciências Humanas na Universidade de Bremen, inaugurado em 1973. É famoso pela estrutura labiríntica que levou a diversos projetos (relativamente mal sucedidos) de comunicação visual para orientar os usuários.
6)
Klezmer é um gênero de música judaica não litúrgica.
7)
Ratskeller é, tradicionalmente, um bar ou restaurante no porão de uma prefeitura (Rathaus). O Ratskeller de Bremen, construído no início do século xv, é célebre por sua adega, uma das mais antigas do mundo e que foi centro do comércio de vinho em Bremen por muito tempo.
8)
Illich viveu a primeira infância na Dalmácia, na costa leste do mar Adriático.
9)
A Villa Ichon, onde Illich recebeu o prêmio que mencionei na nota 1, é um prédio histórico de Bremen, construído em meados do século xix, como residência. Hoje é patrimônio municipal e abriga, além de um restaurante, as sedes de diversas organizações culturais e pacifistas. A Villa fica próxima a um parque cuja origem é um fosso construído em torno das muralhas da cidade, provavelmente já no século xi. No início do século xix, por iniciativa popular, a área foi transformada em parque público, sem as muralhas, mas mantendo-se o corpo d’água formado pelo antigo fosso.
10)
O original, Schlüsselgewalt, designa o poder dos cônjuges de dispôr e decidir acerca do patrimônio familiar. Em português, a tradução literal que usei aqui — poder das chaves — significa, na verdade, o poder de admitir ou excluir membros da igreja católica.
11)
A cidade de Spalato ou Split é a segunda maior da atual Croácia e é considerada a capital da região da Dalmácia. O Palácio de Diocleciano, na verdade um imenso complexo fortificado, foi construído a partir do século iv, e suas muralhas e edificações ainda hoje estruturam toda a área central de Spalato.
12)
O original, Denkerei, seria um lugar onde se produz pensamento, como na padaria (Bäckerei) se produz pão. Daí minha opção por ‘pensaria’.
13)
Literalmente, a expressão se traduziria por algo como ‘bem consigo cheirar você’, e ela significa ‘gosto de você’. Não há equivalente em português, mas o ponto em questão se reflete em outras expressões, como ‘isso não está me cheirando bem’.
14)
A expressão em alemão a que Illich se refere, ich kann dich gut leiden, tem sentido afetuoso: novamente, ‘gosto de você’. Mas sua tradução literal seria ‘bem consigo sofrer (suportar) você’.
15)
Em português se diz que alguém inspira confiança.
16)
Em alemão, Einfriedung ou Umfriedung é uma cerca, grade ou muralha que delimita e, quase sempre, fecha um território, seja um lote ou uma cidade. Sua etimologia é a mesma da palavra Frieden, paz, sugerindo que o no interior do território cercado se está em paz, protegido das ameaças externas.